A preocupação com o
futuro parece ser uma constante na educação, quando deveria ser uma variável,
considerando a multiplicidade de aspectos físicos, sociais, emocionais e
cognitivos que envolvem o desenvolvimento humano.
A ideia de “Preparar” é
subjacente ao esforço educativo. Antes estava presente na divisão didática para
transmitir os saberes socialmente acumulados pela humanidade. Muitas gerações
foram alfabetizadas na escola, a norma culta e as sequencias matemáticas bem
organizadas e demarcadas, noções de organização para o trabalho. Nas últimas
décadas do século passado uma geração transgrediu os saberes acumulados e
começou a explorar conexões, o que a princípio foi identificado como
inderdisciplinaridade, depois multidisciplinaridade e, logo a seguir,
transdisciplinaridade.
Nas primeiras décadas
do século XXI há consenso que a vida humana será socialmente produtiva, visto
que a conectividade foi incorporada pelos nativos digitais.
Será? Já é!
Nas primeiras décadas
do século temos Ensino Híbrido, Metodologias Ativas, Aprendizagem
Significativa, etc. colocando o aluno como sujeito. Mas, agora a ideia de
preparar nos remete à estruturas que ainda não estão completamente definidas.
Ainda estou me perguntando se já sabemos o que será necessário no futuro. E
quando será o futuro para o qual entendemos que a vida será diferente? Será? Já
é!
Preparar para quê?
Ah, sim, foi um dado
estatístico que chamou a atenção para o fato: cerca de 40% dos estudantes
brasileiros não acredita no ensino formal oferecido pelas escolas (1). A
primeira dúvida é se o que a escola propõe para preparar para o futuro está em
consonância com a ideia de futuro que os alunos enxergam. A segunda dúvida é
maior: quem está projetando o futuro? Os jovens ou a escola?
A inclusão do Projeto
de Vida, via BNCC, no currículo escolar, atraiu a atenção para o planejamento
de propostas para desenvolver competências, habilidades e valores. E parece ser
no âmbito de desenvolvimento humano que se encontra a necessidade de acolher
variáveis.
José Moran, educador e pesquisador de projetos de inovação, afirma que " a escola e a família são as instituições mais importantes para o desenvolvimento de valores, competências, conhecimentos e projetos."
Até o momento, a
variável mais clara, e por isso significativa, é indicada pela percepção da demanda
do mercado de trabalho por profissionais em 2030. Geradora de experiências
marcantes, a cultura é uma variável de maior importância, pois é transformada
coletivamente de forma volátil, célere.
Em curtos períodos
transitamos de um extremo ao outro: do anúncio de eventos que movimentam a
economia gerando riqueza, para denúncias de comportamentos coletivos
inadequados e prejudiciais. No Carnaval, festa coletiva de máscaras e
fantasias, representações culturais e relaxamento das convenções sociais, há vivências
que demonstram como a mudança cultural afeta o desenvolvimento da nova geração.
As fantasias reproduzem o universo midiático e as brincadeiras de salão
somam recreação saudável e instrutiva. O frevo pode ser apresentado como
uma dança, uma performance que exige alongamento e treinamento. O samba pode
desfilar na avenida de forma espetacular. A Quarta-feira de Cinzas pode
ser invadida por denúncias on-line e em tempo real dos ambientalistas. Tudo
volátil, célere e transformador. As variáveis pululando: sustentabilidade (com
biogliter e confete natural); ostentação, violência e cidadania no mesmo espaço
jornalístico; aula de história e geografia em samba-enredo; ócio puro, etc.
A variável da
cultura familiar demanda o acolhimento da diversidade (Carnaval ou Retiro? Rua
ou Bloco? Suco ou refrigerante? Pudor ou consciência do corpo? Ciberativismo
antes ou depois?). E a dúvida do “preparar para o futuro” pode tornar-se mais
simples, com as vivências e experiências próprias de cada idade, em ambientes
saudáveis e estimulantes. Convergindo para a escola, enriquecendo-a. De forma
que há um diálogo a ser estabelecido à longo prazo.
(1) O papel da escola na construção do projeto de vida dos estudantes - Conexão Futura - Canal Futura

